A última mensagem anual do governador Eduardo Leite à Assembleia escancarou uma desconexão preocupante entre o discurso oficial e as urgências reais da população gaúcha. Enquanto reafirma sua convicção em conceder rodovias e levar adiante os leilões dos blocos 1 e 2 até o fim do mandato, o governador parece escolher o asfalto como prioridade e relegar a proteção das mulheres a um plano secundário.
Não se trata de negar a importância da infraestrutura, mas de questionar a ordem das prioridades. O Rio Grande do Sul convive com números alarmantes de feminicídios, uma chaga social que exige liderança firme, políticas públicas consistentes e ação imediata. Ainda assim, entre as quatro prioridades anunciadas para o último ano de governo, não há uma referência clara, estratégica e dedicada ao enfrentamento dessa violência.
Ao exaltar resultados na educação, pauta que de fato merece atenção permanente, Leite deixou uma lacuna difícil de justificar. Governar também é ter sensibilidade para reconhecer onde a dor é mais urgente. Quando mulheres seguem sendo assassinadas, o silêncio programático soa como indiferença.
A cobrança feita por opositores após o discurso não é mero gesto político. É um alerta legítimo.
Um governo que pretende encerrar seu ciclo com legado precisa demonstrar compromisso inequívoco com a vida. Segurança para as mulheres não pode ser nota de rodapé, precisa ser eixo central.
Persistir em projetos de concessão enquanto falta uma agenda energética e concentrada contra o feminicídio transmite uma mensagem perigosa: a de que algumas emergências podem esperar. Não podem.
O Rio Grande exige mais do que convicções administrativas. Exige coragem para colocar a proteção das mulheres no topo da lista e transformar promessa em prioridade real. Porque nenhuma obra será grande o suficiente para compensar vidas que poderiam ter sido salvas.
Leite ignora feminicídios e insiste em pedágios como prioridade
Por J. Saraiva
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